QUE DIABO DE SITUAÇÃO
O sol, a pique,
incendiava a aldeia àquela hora do dia. António, junto a cama, tentava aliviar
a febre de Beatriz, sua mulher há mais de quarenta anos, limpando-lhe a testa
com um pano encharcado em água fria. Viviam só os dois desde que o José, seu único
filho, se casou e foi viver para Lisboa onde arranjou trabalho. Os vizinhos que
já eram poucos e velhos deixaram a aldeia, uns após outros e foram também viver
para junto dos seus filhos espalhados pelas grandes cidades do país - Lisboa,
Porto, Viseu e muitas outras. Sem ninguém a quem recorrer naquele momento de
aflição, procurava encontrar algumas melhoras na febre da mulher para ir a mercearia
do senhor Júlio e telefonar ao médico que vivia na vila, a quatro quilómetros
dali. Estava nessa lida de espera e já a lembrar-se do caminho que tinha de
palmilhar depressa.
-Beatriz,
ficas aqui um bocadinho sozinha que eu vou telefonar a mercearia do senhor
Júlio, para o senhor doutor cá vir, está bem?
-
Está bem, António, vai lá – disse-lhe em voz quase impercebível e sem abrir os
olhos.
-
Eu já volto!
Já na estrada,
olha o sol como que a pedir-lhe misericórdia e aconchega o chapéu a sua cabeça.
Caminha apressado sem tirar os olhos do asfalto escuro de onde vinha um cheiro
intenso a alcatrão derretido. Revisita a imagem da sua mulher deixada estendida
em cima dos lençóis, amarrada aquela maldita febre que teima em ficar para
sempre naquele corpo já débil. Levanta os olhos por uns instantes a medir o caminho
que falta ainda percorrer e apressa o passo mais um pouco para ver se ganha
algum tempo.
- Boa tarde, senhor
Júlio!
- Boa tarde,
António. Então que tens, homem, vens com ar cansado! – Apressa-se a perguntar o
dono da mercearia indo ao seu encontro.
- É a minha
Beatriz! Está com muita febre e já não sei o que fazer! – Responde-lhe já quase
sem folego enquanto se aproximava do telefone.
- Tem o número
de telefone do senhor Doutor Alberto?
- Sim, está aí
num papel dependurado por cima do telefone. Consegues vê-lo?
- Já vi,
obrigado! – Responde sem o olhar o merceeiro enquanto levantava o aparelho para
marcar os números.
- Está lá! É da
casa do senhor doutor Alberto?
- É sim, quem
fala?
- Daqui é o
António, de Santo António do Côa. Ele conhece-me muito bem porque já cá veio a
minha casa muitas vezes. Era para lhe pedir que viesse cá ver a minha mulher,
que está muito doente!
- Está bem! O senhor
doutor, está mesmo a acabar uma consulta e vai já para aí!
- Obrigado!
Diga-lhe que é muito urgente, está bem!
Pousou o
telefone e apronta-se para sair enquanto preparava o pagamento do serviço ao
merceeiro que já estava ali junto a ele a tentar consolá-lo.
- Deixa lá, António.
Logo pagas para a outra vez. Vai mas é depressa para junto da tua mulher que
precisa de ti!
- Obrigado, senhor
Júlio! – E sai arrastando consigo as fitas de plástico dependuradas na porta do
estabelecimento por causa das moscas, que eram muitas naquela estação do ano.
Com o tino na
sua mulher, mete-se a caminho de volta para casa. Estava já a entrar no curral
quando um carro, que vinha apressado, para mesmo em frente ao portão que ele se
preparava para fechar. Lá de dentro sai um homem, metido num fato preto já
gasto e de pasta na mão. Era o senhor doutor Alberto.
- Boa tarde,
António!
- Boa tarde,
senhor doutor. Entre, se faz favor!
O doutro
Alberto segue apressado a frente, logo seguido pelo dono da casa e dirige-se
para o quarto que já conhecia de outras vezes. Sobre a cama vê uma mulher
estendida e serena. Olha-a primeiro lá do alto e depois debruça-se sobre ela e
agarra-lhe o pulso. Por fim, vira-se para trás cabisbaixo e dirige-se ao dono
da casa.
- Lamento, António!
Desta vez, não pode fazer nada!