sexta-feira, fevereiro 13, 2015

QUE DIABO DE SITUAÇÃO

O sol, a pique, incendiava a aldeia àquela hora do dia. António, junto a cama, tentava aliviar a febre de Beatriz, sua mulher há mais de quarenta anos, limpando-lhe a testa com um pano encharcado em água fria. Viviam só os dois desde que o José, seu único filho, se casou e foi viver para Lisboa onde arranjou trabalho. Os vizinhos que já eram poucos e velhos deixaram a aldeia, uns após outros e foram também viver para junto dos seus filhos espalhados pelas grandes cidades do país - Lisboa, Porto, Viseu e muitas outras. Sem ninguém a quem recorrer naquele momento de aflição, procurava encontrar algumas melhoras na febre da mulher para ir a mercearia do senhor Júlio e telefonar ao médico que vivia na vila, a quatro quilómetros dali. Estava nessa lida de espera e já a lembrar-se do caminho que tinha de palmilhar depressa.
                -Beatriz, ficas aqui um bocadinho sozinha que eu vou telefonar a mercearia do senhor Júlio, para o senhor doutor cá vir, está bem?
                - Está bem, António, vai lá – disse-lhe em voz quase impercebível e sem abrir os olhos.
                - Eu já volto!
Já na estrada, olha o sol como que a pedir-lhe misericórdia e aconchega o chapéu a sua cabeça. Caminha apressado sem tirar os olhos do asfalto escuro de onde vinha um cheiro intenso a alcatrão derretido. Revisita a imagem da sua mulher deixada estendida em cima dos lençóis, amarrada aquela maldita febre que teima em ficar para sempre naquele corpo já débil. Levanta os olhos por uns instantes a medir o caminho que falta ainda percorrer e apressa o passo mais um pouco para ver se ganha algum tempo.
- Boa tarde, senhor Júlio!
- Boa tarde, António. Então que tens, homem, vens com ar cansado! – Apressa-se a perguntar o dono da mercearia indo ao seu encontro.
- É a minha Beatriz! Está com muita febre e já não sei o que fazer! – Responde-lhe já quase sem folego enquanto se aproximava do telefone.
- Tem o número de telefone do senhor Doutor Alberto?
- Sim, está aí num papel dependurado por cima do telefone. Consegues vê-lo?
- Já vi, obrigado! – Responde sem o olhar o merceeiro enquanto levantava o aparelho para marcar os números.
- Está lá! É da casa do senhor doutor Alberto?
- É sim, quem fala?
- Daqui é o António, de Santo António do Côa. Ele conhece-me muito bem porque já cá veio a minha casa muitas vezes. Era para lhe pedir que viesse cá ver a minha mulher, que está muito doente!
- Está bem! O senhor doutor, está mesmo a acabar uma consulta e vai já para aí!
- Obrigado! Diga-lhe que é muito urgente, está bem!
Pousou o telefone e apronta-se para sair enquanto preparava o pagamento do serviço ao merceeiro que já estava ali junto a ele a tentar consolá-lo.
- Deixa lá, António. Logo pagas para a outra vez. Vai mas é depressa para junto da tua mulher que precisa de ti!
- Obrigado, senhor Júlio! – E sai arrastando consigo as fitas de plástico dependuradas na porta do estabelecimento por causa das moscas, que eram muitas naquela estação do ano.
Com o tino na sua mulher, mete-se a caminho de volta para casa. Estava já a entrar no curral quando um carro, que vinha apressado, para mesmo em frente ao portão que ele se preparava para fechar. Lá de dentro sai um homem, metido num fato preto já gasto e de pasta na mão. Era o senhor doutor Alberto.
- Boa tarde, António!
- Boa tarde, senhor doutor. Entre, se faz favor!
O doutro Alberto segue apressado a frente, logo seguido pelo dono da casa e dirige-se para o quarto que já conhecia de outras vezes. Sobre a cama vê uma mulher estendida e serena. Olha-a primeiro lá do alto e depois debruça-se sobre ela e agarra-lhe o pulso. Por fim, vira-se para trás cabisbaixo e dirige-se ao dono da casa.

- Lamento, António! Desta vez, não pode fazer nada!