Felizes para
sempre
E viveram felizes para sempre; Mas António e Marta recordaram, ainda
tenros de idade mas fortes no amor, aquele instante, naquele dia.
Os dias foram passando e os anos também; Mas para os dois, os dias
deixaram de ter noites, só dias; Para os dois, deixou de haver amanhãs e onténs,
só hoje; Para os dois, deixou de haver verões e invernos ou outonos tristes, só
primaveras. Para os dois, o tempo parou naquele instante, naquele dia.
Mas os anos traiçoeiros, vão e vêm sem serem convidados. E a velhice veio
e prometeu-lhes a tristeza mas o amor deu-lhes a alegria; A velhice prometeu-lhes
dias e noites mas eles só quiseram o seu dia; A velhice prometeu-lhes verões e
invernos e outonos tristes mas eles só quiseram primaveras como naquele
instante, naquele dia.
Depois houve um dia, em que o dia chegou negro. Os dois abraçados, olharam-se
como naquele primeiro instante, naquele dia. E depois deixaram-se ficar a olhar
aquele dia como se já não houvesse outro. Sentaram-se e aguardaram a sua vez.
Depois deitaram-se abraçados um no outro e assim ficaram para sempre, como
naquele instante, naquele dia.
Voaram como só as andorinhas sabem voar. Brincaram pelos campos em voos rastejantes
e alegres como só as crianças sabem fazer e visitaram lugares seus a
despedirem-se deles. Depois, em voos cada vez mais altos desapareceram envoltos
em castelos feitos de nuvens brancas, como naquele instante, naquele dia.
A recebê-los estavam anjos e arcanjos que lhes cantaram sinfonias nunca
ouvidas. Transportaram-nos, depois, em procissão até ao Rei que os aguardava
sentado no seu trono feito de nada; Abre-lhes os braços e aperta-os como só um
pai o sabe fazer. E depois sobem os três, seguidos por mais anjos e arcanjos e querubins
e eles deixaram-se ir como naquele instante, naquele dia.
Joaquim Ricardo